Toda moda é retrô? Explicando o Revival – Parte 3/4

por Queila Ferraz
/ 15 julho 2009 / 4comentarios

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Lolitas – Imagem do site HAWT action

O Revival é uma citação estilística que nega a separação entre o passado, o presente e o futuro, entende como se tudo não passasse de uma sucessão de fatos, evidenciando assim uma verdade e uma realidade impossível de conciliar. Nós temos tendência psicológica à imitação. A necessidade de imitação vem da necessidade de similaridade, já que imitar não só transfere a atividade criativa, como também a responsabilidade sobre a ação de um para o outro.

Por valorizar o passado, o Revival é sempre romântico e saudosista. Quem cria o universo baseado no Revival está preso ao passado, vendo-o como belo e glorioso, pode também está com medo do futuro, o tornado inaceitável. O Revival não está preso a um tipo específico de estilo, ele é eclético, podendo ser encontrado em qualquer lugar do tempo e do espaço. Este é o caso dos românticos, das lolitas e das modas neogótica, neo-hippie e neo-punk.

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Hippies – Imagem via blog O Esguincho e Neo-hippie – via site Polyvore

Opondo-se ao historicismo clássico, o Revival torna-se romântico, revive o passado, mas não o imita, apenas adéqua o passado à realidade através do uso de detalhes de modelagem (moldes ou formas) que lembrem aquele passado, mas que são usados a partir de novas matérias-primas. Por isso não faz o retorno ao passado e sim promove o que aconteceu como aspecto de imaginação, tentando recuperar assim o sentimento saudosista através de elementos do passado.

É exatamente aí onde a ambigüidade do Revival se instala, por um lado a arte sendo atemporal, mas que permanece como marcador no seu tempo, o Revival a retrata novamente com novos processos, usando a tecnologia que está sempre voltada ao futuro. Muitas coisas que encaramos como natural hoje, foram pensadas no passado, para serem realizadas agora. Hoje a influência para criação das coisas vem da desumanização, ou seja, automação dos processos de pensamento, por exemplo, nos anos 70, do século passado, a robótica falava dos processos realizados por robôs, hoje se fala de robôs “inteligentes”.

O que sustenta na verdade o Revival é o gosto, intencionalidade poética, é a forma de ligar-se afetivamente ao próprio tempo, podendo viver o presente e estar eternamente ligado ao passado.

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Revival:  Louis XIV

Podemos identificar o Revival na moda, arquitetura, pintura etc. Muitos produtos desenvolvidos para o hoje, já foram desenvolvidos ou pensados no passado, tudo que usamos não passa de um aprimoramento às nossas necessidades. As mudanças se verificam no tamanho do produto, na tecnologia, nos materiais, técnicas de fabricação, mas sempre vão nos servir para algo que no passado já se usava, apenas de outra forma.

A criação de objetos está sujeita aos valores éticos estéticos de cada época, por isso o Revival mexe com a nossa herança cultural, o que uma cor ou forma pode representar para uma determinada sociedade, para outra pode ser representada totalmente diferente, mostrando mais uma vez que o Revival está intimamente ligado à nossa herança cultural.

Cultura é memória, uma vez que tudo que a coletividade vive se inscreve na memória. Sendo assim, é necessária a criação de um sistema de regras que determinem a tradução da experiência imediata em texto. Cada cultura define os paradigmas que determinam o que deve permanecer na memória e o que deve ser esquecido. Os paradigmas buscam no passado e transpõe os mitos onde a história não constitui uma estrutura unitária entre pensamento e ação.

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Beatles nos anos 60 e o Emocore em 2008

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Beatles

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Faith No More

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Cavalheiro em 1933 via Wikipédia

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Neo-punks

Leia também :

Toda moda é retrô? O revivalismo na moda – Parte 1/4.

Toda moda é retrô? Retrô – Moda e Retrô – Design (parte 2/4)

Toda moda é retrô? O Romantismo, um Revival na Moda – Parte 4/4

Por Queila Ferraz

15 julho 2009
Queila Ferraz

Queila Ferraz

Queila Ferraz é historiadora de moda e arte, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário. Trabalhou como coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac e da Belas Artes.