Notre Dame e sua importância simbólica e cultural para o mundo

por Queila Ferraz
/ 23 abril 2019 / 1comentarios

Belíssimo artigo para entender a importância simbólica e espiritual da Catedral de Notre Dame e o contexto de nascimento do estilo gótico – História da arte e da Moda.

O mundo lamenta e se espanta com as cinzas da Catedral de Nossa Senhora de Paris.

Corações e mentes, não importando a crença, a fé, a idade ou a nacionalidade, querem compreender o significado desse edifício para a história da humanidade, pois só assim poderão dimensionar o real valor da perda cultural desse patrimônio.

A Notre Dame de Paris não é só francesa, cristã ou católica. Ela é o símbolo de uma nova era, de uma nova sociedade e sua cultura representa um novo modelo de fé e arte que surgiu na Europa, depois do primeiro milênio da Era Cristã.

Para erguê-la foi introduzida na história da arte uma nova tecnologia construtiva, feita com pedra, madeira, ferro e vidro.
O objetivo da idealização da Notre Dame foi o louvor a Deus, em gratidão pelas graças concedidas aos homens que voltavam das Cruzadas, vitoriosos e com possibilidades de reconstruir uma nova Europa, que, naquele período estava devassada pela queda do Império Romano e pelas Invasões Bárbaras.

Sendo esta Catedral a primeira grande obra do período gótico, que foi de 1100 a 1450 dC, ela carrega todos os símbolos desta nova mentalidade e de seu novo modelo de gestão política, visto que nela se uniam o poder dos homens da igreja católica aos homens da terra, que eram os nobres cavaleiros feudais, para juntos criar um novo modo de viver.

A palavra catedral significa A Cadeira do Bispo, o homem gestor do patrimônio material e espiritual da fé em Cristo.

A Catedral de Paris foi consagrada a Nossa Senhora, mãe de Cristo, com o objetivo de louvar a fertilidade e a humanidade desta figura feminina numa sociedade que se erguia sobre valores humanizados.

A cerca  da Notre Dame, o arquiteto francês Le Courbusier (1887-1975) falava que era uma edificação do puro espírito, e que se deve atentar ao fato de sua estrutura geométrica ser regulada pelo quadrado e pelo círculo. Esta é uma premissa da arquitetura Grega, revisitada amplamente na arquitetura modernista do séc.XX.

As cinzas que nos espantam agora carregam lamentos do temor da perda da memória de nossa civilização cristã e ocidental. Esta Catedral é, para mim, pura memória. A primeira vez que a visitei foi em 1982, quando comecei minha carreira de estilista na área de moda.

Eu estava em Paris, pesquisando as tendências da moda para o verão daquele ano. Sou protestante e
ainda não era professora de História de Arte nem da Indumentária. Já havia passado por Florença e Milão, e, confesso que a Notre Dame pouco me impactou diante das catedrais que havia visto na Itália.

Estive lá num domingo, na missa das 18:00h, a pedido da minha sogra, para acender uma vela e rezar uma Ave Maria para a família. Eu ainda não sabia o que era estilo gótico e nem a real importância daquele edifício para a história do Ocidente.

Ao me tornar professora universitária nos cursos de Moda, me encantei com a arte medieval e passei a usar as imagens da Notre Dame, como exemplo da arquitetura gótica cristã, pela clareza da representação dos seus elementos, simbolizando o espírito daquele tempo.

Nela o filósofo Abelardo amou Heloísa e, também lá, dentro da Universidade de Paris, que ficava ao fundo do edifício, formou na mente dos jovens herdeiros daquela nobreza, uma nova consciência do mundo e da vida que projetou para o Ocidente: o Cristianismo e seus valores tão humanizados, representados pela figura da Nossa Senhora, nas rosáceas, que tinha a rosa como símbolo do amor humano a Deus, a Cristo e à família. Além de suas torres, como guardiãs da fé em Cristo, filho desta
Senhora.

Virgem Maria representada à frente da rosácea

As suas rosáceas foram projetadas por alquimista e em seus Vitrais estão contadas as histórias dos Apóstolos, Mártires e Profetas. As cores dos vitrais são impossíveis de serem reproduzidas hoje, porque os saberes alquímicos se perderam no tempo.

A Rosa Sul, iluminada o dia todo pelo sol, convida o fiel a se abrigar naquele castelo contra os medos do mundo pagão. Já a Rosa Norte ilumina o altar e faz brilhar durante todo o dia a Cruz de Ouro que representa a morte de Cristo por amor ao homem e diante da qual o homem fala com Deus, em nome da comunidade, que naquele local celebrava todos os seus eventos: tanto os fúnebres, quanto os festivos e os religiosos.


Diferente dos mosteiros medievais que convidavam ao recolhimento e à meditação, as Catedrais sempre foram espaços de
convívio social e de celebração da vida pública. Lá foram coroados reis, se sagraram jovens cavaleiros que seguiriam rumo às Cruzadas.

Lá também foi celebrada a coroação de Napoleão e a santificação de Joana D’Arc, além dos rituais fúnebres dos grandes
presidentes franceses. Suas duas Torres frontais e o Píncaro Central, que foi totalmente destruído, neste
incêndio, foram edificadas como guardiães deste Castelo de Cristo e dos anseios humanos. Elas falam da busca deste novo tempo por um caminho de espiritualidade e de gratidão.

As torres de qualquer catedral falam, através de sua altura, do desejo de estar perto de Deus. Desejo que já estava presente nas sagradas pirâmides do Egito, sempre apontadas para o céu.

No telhado, as gárgulas, espécie de espíritos que lá estavam para espantar os demônios amedrontadores dos fiéis, falam dos medos humanos e da necessidade de proteção divina. De fato, estas figuras foram projetadas com a finalidade de fazer escoar as águas da chuva, mas tiveram sempre uma força enorme na representação do medo de espíritos demoníacos. Num grupo de Gárgulas colocado em uma quina do telhado, vê-se também um anão com a touca do alquimista, numa clara homenagem àqueles que idealizaram os vitrais.

Projeto dos Cavaleiros Templários, em seus Vitrais estão guardados a história da França, do Cristianismo no Ocidente e um dos modelos da busca humana por um caminho de espiritualidade.

Esta Catedral, que tem sua planta no formato da cruz de Cristo, expõe em seu portal central, a escultura do Juízo Final tal qual descrito no Evangelho de São Mateus, o patrono desta igreja.

Ela será reconstruída! Notre Dame de Paris é sobrevivente das duas guerras mundiais do séc. XX, ocasião quando teve seus vitrais retirados e enterrados para não serem danificados por bombardeios. Agora, com este incêndio, vimos parte deles virarem cinzas, o que é uma dor para nossa civilização.

Nossa Senhora de Paris será reconstruída porque ela é mais que um monumento histórico e uma fonte de interesse turístico: ela é o arcabouço dos mitos que constituem o mundo cristão e é sobretudo um documento da condição humana. Somos seres feitos de medo, fé, esperança e gratidão. Damos graças às forças da natureza que religam o homem ao sagrado que habita em todos nos, em fim, somos seres religiosos.

Neste momento de pensar a memória e a história, não podemos nos esquecer que na cidade de São Paulo, também temos uma catedral gótica, melhor dizendo neogótica.

Estas igrejas foram construídas como releitura do estilo gótico original, entre o séculos XIX e XX. São vinte uma as igrejas deste estilo projetadas no mundo, a Catedral da São Paulo, que é o marco zero da cidade, foi a última a ser construída neste estilo.

Quero aqui também lembrar, que para além do valor histórico, as catedrais foram sempre ricas fontes de referências para a criação na área de moda, devido a sua grande e curiosa variedade de detalhes, tanto materiais como espirituais.

Ao olharmos para ela como fonte de inspiração, vemos os Vitrais com suas cores e figuras, também todo o equipamento
religioso e clerical que existe dentro de um templo típico do Cristianismo Medieval Ocidental.

Uma catedral é sempre um documento de vida!

Catedral Notre Dame em Paris, uma referência do estilo gótico

 Catedral da Sé em São Paulo, construída em estilo neogótico

Por Queila Ferraz

(Queila Ferraz é historiadora de moda e arte, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário. Trabalhou como coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac e da Belas Artes. Veja mais artigos da Queila Ferraz)

23 abril 2019
Queila Ferraz

Queila Ferraz

Queila Ferraz é historiadora de moda e arte, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário. Trabalhou como coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac e da Belas Artes.