Estilo nas alturas – A história dos uniformes das comissárias de bordo

por Samantha Mahawasala
/ 08 maio 2015

Quando os voos comerciais tiveram seu início nos anos 50, voar não era apenas um modo de ir do ponto A ao ponto B. Voar era um evento por si próprio. O papel das comissárias de bordo era igualmente exaltado – elas precisavam ter o visual de super modelos, os talentos de uma dona de casa dedicada e a astúcia de um paramédico, inclusive para fazer um parto, como revelou a ex comissária Betty Riegel em seu livro Up in the air.

De sáris a hot pants, do jato particular do Hugh Hefner ao gigante Airbus A380, os céus já viram de tudo – e agora histórias inusitadas e fotografias raras foram coletadas por Keith Lovegroove em seu fascinante livro: Style at 30,000 feet (“Estilo a 30 mil pés”, em tradução livre).

O livro é uma celebração do glamour que é voar. Aborda o estilo, a comida, o design interior e o branding das companhias aéreas. Keith conta que o pai era engenheiro de aeronaves e “arrastava” a família ao redor do mundo – isso foi durante os anos 60, um período que o autor descreve como uma época glamorosa para voar.

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Em seu trabalho Keith quis explorar o lado fashion das companhias aéreas, como começou e a forma com que se desenvolveu ao longo dos anos. Ele observa que toda a cultura humana estabelecida no chão era mantida e desenvolvida a 30 mil pés de altura, como um universo de moda paralelo. Como ele mesmo expõe, as narrativas coletadas em seu livro são um reflexo da história da humanidade dos últimos sessenta anos e uma redescoberta do romantismo de voar.

A “era de ouro” da aviação comercial que Keith descreve é a época em que a Pan Am e a Concorde eram as companhias que lideravam o mercado. Um tempo em que os passageiros se vestiam a rigor, lagostas faziam parte do cardápio padrão e havia muito mais espaço para esticar as pernas. Todo o glamour de voar não se limitava apenas aos céus – o luxo começava nos terminais dos aeroportos, que tinham uma aparência muito mais elegante, longe de ter as centenas de cadeiras e as filas enormes que conhecemos hoje.

Para se candidatar a um emprego de comissária nos anos 60 era preciso pesar entre 50 e 60 quilos, ter entre 21 e 27 anos, ser solteira e ser uma “moça de boa moral”. Atendendo todos esses requisitos, ainda era preciso concorrer com mais centenas de meninas pela vaga. Na seleção, era preciso fazer traduções de francês para inglês, andar por uma sala para exibir sua postura e ainda ser pesada em público. Se aprovadas, tinham mais seis semanas de treinamento intenso até embarcar num primeiro voo, adquirindo conhecimentos de como servir refeições, aduaneira internacional e geografia, por exemplo.

História dos uniformes das comissárias de bordo – Bristish Airway na década de 50.

Desde o início da aviação comercial, os uniformes eram pensados para transmitir o glamour e a elegância de voar. Durante os anos 50 as roupas das comissárias não sofreram muitas alterações – inspiradas nos uniformes da aeronáutica, eram basicamente um colete azul, mais claro ou mais escuro, saia abaixo do joelho e boina. Um acessório ocasional era um lenço amarrado no pescoço, normalmente na cor amarela para contrastar harmonicamente com o azul.

Nos anos 60 os uniformes continuaram na linha da aeronáutica, mas já exalavam o perfume da década, com a silhueta mais estruturada e futurista dos tubinhos. Com o grande crescimento do mercado e do número de passageiros, as companhias aéreas começaram a estampar revistas com propagandas que levavam fotos das suas comissárias, o que exigiu uma maquiagem mais pesada para as meninas e uma cartela de cores mais vibrantes para os uniformes.

Já nos anos 70 as companhias se entregaram ao clima da década e apostaram numa gama ainda maior de cores, texturas e materiais. Depois da revolução comportamental dos anos 60, até no uniforme das comissárias as saias ficaram mais curtas e ousadas. Ainda nos anos 70 a profissão foi interferida pela luta pelo direito das mulheres. As comissárias organizaram um dos mais poderosos sindicatos femininos para lutar contra a descriminação no local de trabalho. As primeiras mulheres não-caucasianas a trabalharem no setor foram contratadas na década de 70 pela British Midland Airways.

História dos uniformes das comissárias de bordo –  Thai International Airlines na década de 50.

A partir dos anos 80 os uniformes das comissárias ganharam uma gama de modelos que já não tinham quase nada em comum com a aeronáutica. Uma das principais mudanças foi o desuso da boina, tão característica. Na década de 80 as roupas contaram com xadrezes diversos, seguidos por ombreiras e blazers quadrados dos anos 90. Nos dias de hoje os looks das companhias internacionais apresentam uma modelagem estruturada, sob medida e com ares de alta costura.

Alguns grandes nomes do haute couture fazem parte da história dos uniformes de comissárias de bordo, como Christian Lacroix, Gianfranco Ferré, Nina Ricci, Carven, Louis Féraud, Jean Patou, Hardy Amies, Pierre Balmain, Emilio Pucci e Pierre Cardin.

Keith Lovegroove não é o único entusiasta quando o assunto é uniformes nas alturas. Cliff Muskiet é um holandês que coleciona, atualmente, 1295 uniformes de 481 companhias aéreas ao redor do mundo – e esse número só cresce. É possível conferir a coleção em casa, através do site Uniform Freak, ou então ao vivo no Museu da Aviação da TAM, que fica em São Carlos, a 250km de São Paulo.

 

História dos uniformes das comissárias de bordo – Anos 50

História dos uniformes das comissárias de bordo – Pakistani Airways em 1957

História dos uniformes das comissárias de bordo – 1959

História dos uniformes das comissárias de bordo – British European Airways na década de 60

História dos uniformes das comissárias de bordo – Pan Am nos anos 50

História dos uniformes das comissárias de bordo – Icelandic Air nos anos 60

História dos uniformes das comissárias de bordo – British Airways

História dos uniformes das comissárias de bordo – Anos 60

História dos uniformes das comissárias de bordo – Anos 60

História dos uniformes das comissárias de bordo – Southwest Airlines of Texas em 1973

História dos uniformes das comissárias de bordo – Southwest Airlines of Texas em 1973

História dos uniformes das comissárias de bordo – Pan Am em 1973

História dos uniformes das comissárias de bordo – Pan Am nos anos 70

História dos uniformes das comissárias de bordo – Pan Am nos anos 70

História dos uniformes das comissárias de bordo – British Midland Airways em 1970

História dos uniformes das comissárias de bordo – United Airlines em 1970, looks feitos por Jean Louis

História dos uniformes das comissárias de bordo – Gulf Air’s em 1973

História dos uniformes das comissárias de bordo – Virgin Atlantic em 1999

História dos uniformes das comissárias de bordo – Uniforme atual da British Airways

Fotos: Daily Mail

08 maio 2015
Samantha Mahawasala

Samantha Mahawasala

Paulistana formada em jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e com curso técnico de locução pela Rádioficina. Atuou como redatora e locutora no Grupo Bandeirantes de Rádio e também como repórter para um telejornal segmentado.