Opinião: A disputa das Tragédias – Rezar por Paris ou por Minas?

por Denise Pitta
/ 16 novembro 2015 / 1comentarios

Rezar por Paris ou por minas 1 nA importância de tais discussões, por mais  incômodas que pareçam, é trazer para o consciência questões muito mais profundas que escondem em seu âmago a  chave da evolução

A discussão anda quente nas redes sociais e enquanto muitos, eu entre eles, mudam suas fotos de perfis por apoio a Paris, outros questionam: por que não foram colocadas no perfil a bandeira brasileira banhada de lama em apoio à tragédia acontecida em Bento Rodrigues no distrito de Mariana-MG ou às chacinas nos vários pontos do país?

Mais que uma disputa sórdida de tragédias, quais são os verdadeiros questionamentos? E o que simbolizam em sua essência, cada um destes movimentos?

Paris, conhecida como Cidade Luz, é dos grandes símbolos da cultura ocidental, reduto da liberdade de expressão, a cidade já foi considerada a mais importante do ocidente, sendo de extrema relevância na história mundial.

Não é só a França, e sim, os valores ocidentais que estão sendo atacados. Mais que rezar por Paris, é por nós mesmos que estamos rezando, estarrecidos com o terror que anda assolando o mundo, mergulhado em crises, mortes e tragédias de todo tipo.

O que estamos chamando de crise, é também a oportunidade que temos de uma grande reflexão sobre valores, ou melhor,  inversão dos valores. Teremos que rever nossas políticas… Em um mundo onde se prega igualdade, todos querem ter direitos e ser excluído gera enorme ressentimento e revolta, que alimentam iniciativas como a do Estado Islâmico.

Parecemos viver, cada vez mais, em uma época em que se valoriza coisas e marcas, em detrimento do amor e das pessoas. Essa pode ser uma boa dica para entendermos como chegamos nessa situação… Nos tornamos cada vez mais individualistas fazendo com que interesses pessoas, prevaleçam sobre o coletivo não importando as consequências. Fizemos uma grande revolução tecnológica, mas não amadurecemos emocionalmente na mesma proporção. Ainda lutamos por ser amados e aceitos, e, levamos no peito enorme angústia e dor emocional.

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A tragédia de Bento Rodrigues é muito diferente da tragédia da França. A nossa tragédia é mais um alerta grave: da ineficiência e da corrupção em que vive o país.

A tragédia de Minas é uma metáfora perfeita para o mar de lama que o Brasil virou.

O rompimento das barragens e toda inundação que devastaram cidades e natureza pode não ser em vão. Poderá ser construtivo se chamar atenção para o estado grave de negligência de represas, minas, usinas, e, tudo mais neste país. Eu mesmo, já assisti, uma barragem quase secar o Rio Grande lá na minha cidade – Barreiras-Ba, por pura negligência…

Se o caso mineiro for olhado por outro ângulo, poderá ser transformado em consciência! Suas mortes poderão impedir outras tragédias maiores e também levantar questionamentos para nós brasileiros, fomentando uma mudança de postura…

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Minha foto não tem a lama de Minas, metáfora perfeita para situação geral do país. Não é a ineficiência, a corrupção e a mediocridade que quero ter na minha foto de perfil!

Um ataque a Paris, símbolo da liberdade e dos valores ocidentais, é também um ataque a cada um de nós! Entretanto, uma grande oportunidade de olhar na direção oposta do ressentimento e rever valores, rever nosso estilo de vida para uma forma mais inclusiva e mais justa que torna viver, não apenas uma questão de sobrevivência a qualquer preço, mas, uma busca por formas que permitam a todos os seres habitantes deste planeta viver com dignidade.

O drama de Minas deveria nos revelar: ou melhoramos como povo, em nossa cultura, em nossa eficiência, em nossa aceitação pessoal e alheia da corrupção, ou estamos fadados a viver no mar de lama deixado no rastro da corrupção endêmica no país.

Foto verde e amarelo, para lembrar o quê? Que centenas morreram porque somos, como povo, negligentes? Centenas morreram por que não cultivamos eficiência, aceitamos com facilidade corrupção, alheia e a nossa própria?

Minha foto não será verde e amarela, a não ser, que esta tragédia, levante questionamentos maiores. A não ser que cada um de nós consiga assumir melhor nossa responsabilidade como nação e que interesses individuais não prevaleçam sobre os interesses do país. A  não ser que paremos de votar em palhaços e ladrões e consigamos, de algum modo, cobrar de nossos governantes e da gente mesmo, um cuidado maior com o Brasil.

Rezo, rezo sim, mas para que nos tornemos mais eficientes, mais responsáveis, menos corruptos e menos “espertos”.

Leia também alguns artigos interessantes que questionam o momento do Brasil:

Não está aqui em causa enumerar cegamente problemas como se todas as outras nações não tivessem os seus, mas lembrar que para tudo há limites, que o Brasil está ultrapassando todos eles, e que a única chance de isso melhorar é que todos estejam plenamente cientes da realidade.Esse artigo não tem por objetivo esclarecer todos os problemas, muito menos todas as soluções de uma nação grande e complexa como o Brasil. Isso não é um convite para que todos façam as malas. A metáfora aqui proposta é a necessidade de se abandonar o mais rápido possível essas práticas de um Brasil que maltrata seu coletivo para que seja possível redescobrir a essência do povo brasileiro.

Confira imagens do que está rolando nas redes sociais

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 Por Denise Pitta

 

16 novembro 2015
Denise Pitta

Denise Pitta

Denise Pitta é digital influencer e empreendedora. Idealizadora do Fashion Bubbles, é também editora chefe do portal que já recebeu mais de 107 milhões de visitas. Estilista, formada em Moda e Artes Plásticas, atuou em diversas confecções e teve marca própria de lingeries, a Lility. Começou o blog em 2006 e está entre as primeiras blogueiras brasileiras da moda. Também desenvolve pesquisas sobre História e Identidade Brasileira na Moda e Psicologia Analítica. É apaixonada por filosofia, física quântica, psicanálise e política. Siga Denise no Instagram: @denisepitta e @fashionbubblesoficial