A fila do albergue – Você já sentiu assim?

por Vinicius Moura
/ 14 março 2016

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Uma aglomeração se formava do outro lado da rua enquanto esperava que o garçom servisse meu café. Era uma tarde gelada e a fila em frente a porta do albergue crescia. Ninguém se falava, era uma fila muda. Não tinham nada para contar sobre o dia? Não tinham expectativas sobre que leito ocupariam? Talvez fossem desconhecidos entre si, e o excesso de frio os fez recorrer a um recurso menos arriscado do que a rua.

Uma garoa fina aumentava a sensação gelada, será que era por isso que não conversavam? Haveria algum arrependimento nesta altura da vida por estarem ali, às custas do abrigo público ou era uma escolha? Era fato que nada parecia abalar aquele amontoado de pedintes…  Já este observador imaginava tudo que poderia ter sido feito de diferente, ou tudo aquilo que acabou dando errado para terem aquele destino. Numa situação hipotética arriscava imaginar: o que fariam se tivessem algum recurso? Eles que conhecem a dura rotina da rua, criariam uma instituição? Compartilhariam com os outros a boa sorte?

No fim da fila encosta um sujeito de postura diferente, mais ereto, de aparência mais limpa. O homem ficou algum tempo ali impassível, minutos suficientes para se tornar apenas mais um, até que retira uma nota de 10,00 R$ do bolso. Sem dizer nada ele estica a nota em direção àquele que está a sua frente. A fila nota a movimentação e repara no gesto, “dez” era um número expressivo, difícil de conseguir. Uma dúvida implícita reacende: será que Deus realmente existia? Aquilo era uma benção? O mendigo agradece o gesto inusitado e se sente dono de uma sorte que só a divindade teria explicação. Ele guarda a nota e tenta disfarçar a satisfação para não chamar mais a atenção. O que poderia ser um misto de culpa por não reconhecer o mérito em ganhar o dinheiro, ou o medo de ter que reparti-lo compartilhando o que viesse comprar com ele. A tentativa de disfarçar o ato não funciona e a fila silenciosa registra a movimentação incomum redobrando a atenção sobre o bondoso homem.

O sujeito misterioso, não esboça reação, nem diz nada. Aquele que recebeu a nota de 10, sente-se tão grato, quanto desconfiado, sabia de longa data que nada vem de graça… Mas não pareceu ser o caso. Passaram 5 minutos e aquelas pessoas absorveram o gesto incomum, voltando a rotina da espera. Entretanto, o homem generoso remexe seus bolsos e retira agora uma nota de 20,00R$ e a oferece ao segundo antes dele. A fila parece sofrer um golpe. Não havia explicação para atitude tão caridosa, quanto inusitada. Uma pergunta silenciosa percorre o grupo: Qual o critério de escolha que o homem faz para distribuir o dinheiro? O quê ele queria com aquilo?

O mendigo que recebeu a nota de 10 foi relembrado e esquecido imediatamente. Num momento era aquele que “Deus” escolheu para agraciar com uma dádiva – uma nota de 10 era uma dádiva –  e no minuto em que surge uma nota de 20 ele é novamente apagado da história. A pergunta existencial retorna: Deus existe? Desta vez retorna com duas vertentes. O de “10” teve certeza que não, bem diferente do pensamento do que recebeu “vinte”. Se a nota de 10 era coisa incomum, nota de 20 só acontecia numa época como o natal, e, ainda assim teria que reunir vários fatores:

1- a pessoa teria que estar se sentindo tocada pelo espírito natalino.

2- Estar com mais dinheiro que o comum.

3- O pedinte teria que estar na hora e no lugar exato onde este transeunte iluminado pela bondade estivesse dando seus primeiros passos, antes do frio desanimá-lo de tirar a mão de dentro do casaco quente.

Nota de 20 é mesmo coisa sem igual.

O mendigo que recebeu 20, hesitava acreditar no ocorrido. Era acostumado ao desapego, mas segurou a nota como o troféu da vida. Aquela nota o colocava numa posição de destaque. Na fila inquieta os olhares se cruzavam perplexos, ainda que não manifestassem nenhum comentário. O silêncio tenso dizia tudo. Toda a inquietação era por ele. Sim! Esta era a primeira vez em muito, muito tempo que se tornara o centro das atenções. Se sentia importante e recompensado por algum mérito ou comportamento que ele não saberia dizer qual, inclusive, para poder repeti-lo a exaustão… Dobrou, dobrou e dobrou a nota de novo até ficar pequenina, apertada e segura no sujo bolso de moedas… Olhou para trás e com um gesto de cabeça acenou agradecendo mais uma vez ao homem misericordioso.

Todos na fila buscavam entender um sentido para tamanha generosidade. Será que haveria distribuição para todos? E qual o critério aquele estranho usava para fazer suas doações? Nada fazia sentido, só havia a sensação de oportunidade e a impotência de não saber como se aproveitar dela. Com a nota bem guardada, o riso na boca do mendigo que recebeu 20 crescia sem que conseguisse disfarçá-lo.

Já o que recebeu 10 tinha uma estranha e inexplicável sensação de que era, como sempre foi, um sujeito sem sorte alguma.

O que fazia a fila ficar mais desconfortável? O frio, a garoa que apertava ou a oferta irracional? Será que aqueles que nada receberam pensavam numa forma de convencer os “eleitos” a compartilhar os ganhos? Entretanto, era fato notável que a nota estava bem guardada e não sairia facilmente do seu lugar. Será que o misterioso homem era um salvador ou somente um estranho sádico?

Passa tempo insuficiente para digerir a ação e o homem, tão bom quanto ruim, (era esta a nova definição do estranho,) enfia a mão no bolso do casaco e entrega ao terceiro à sua frente uma nota de 50, 00 R. A fila parece ter sido atingida por um estrondoso trovão, deixando todos atônitos. Neste instante o frio parecia ter cedido e a fina chuva parado. Que “milagre” acontecia ali? Que sentido teria aquilo? Ninguém poderia desconfiar que a segunda oferta seria 20, mas a quarta seria, com certeza, uma nota de 100. O velho quase sem dentes que recebeu 50, mexeu os lábios e isso foi o máximo que se percebia em seu esforço de gratidão.

Um funcionário do albergue abre a porta e deixa entrar pouco mais de uma dúzia de pessoas e informa que aquele dia os leitos já estavam todos ocupados, sugerindo que procurassem outro local para passar a noite. A chuva cai com mais intensidade e o generoso homem sem nenhuma menção de protesto abre um guarda-chuva se afasta e vai embora. A fila se desfaz.

No final, quem recebeu mais? Pensei nesta avaliação. Aquele que recebeu 50 não teve tempo para ser cortejado, nem construiu uma reflexão sobre o “milagre” ocorrido. Aquele que ganhou 20, recebeu também uma atenção que lhe valia, até mais do que o valor que o dinheiro representava. Em seus secretos planos sua “nota divina” merecia cautela no gasto. Aquele primeiro que levou 10, teve certo desdém por sua nota. Era, incontestavelmente, um bom dinheiro. Ele reconhecia que passava a maioria dos dias apenas na inércia do dia anterior, quase sempre sem ganho algum. Mas aquela nota de 10 estranhamente lhe trazia a certeza de que não era mesmo alguém de muita sorte…

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Por Vinícius Moura

14 março 2016
Vinicius Moura

Vinicius Moura

Vinicius é empresário do setor de auto-peças.