Do lixo, um luxo. Fashion nas favelas? Projeto leva moda à favela do Rio

por Fashion Bubbles
/ 20 dezembro 2013 / 1comentarios

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Quem disse que para estar na moda é preciso ter dinheiro ou copiar o que se vê nas passarelas, está totalmente equivocado.  A moda é democrática, é para todos. Como já citado anteriormente, a moda é sinônimo de atitude,  é um camaleão,  tem personalidade e estilo,  é liberdade de expressão. Dentro deste genuíno conceito, hoje, o Fashion Bubbles lhes apresenta o Projeto Fashion is in the favelas (em português: A moda está nas favelas): www.fashionisinthefavelas.com criado pelas incríveis irmãs americanas Verdugo e pelo qual nos possibilitou  conhecer o talento nato de Ilton Barros.

Barros, que é um simples morador da favela do Complexo do Alemão (RJ), nos mostra que com sua mente genial ele é um exemplo de superação do meio, de que criatividade não tem lugar, nem classe e nem hora. De enxergar para além deste sistema capitalista selvagem que nos sufoca e oprime. Com suas ideias sustentáveis e muito talento ele nos faz repensar o senso de responsabilidade social para com o meio ambiente e que, por muitas vezes, deixamos de lado, por nos preocuparmos tanto com nós mesmos.

Tudo começou por estas duas irmãs cidadãs do mundo, dotadas de um enorme coração e amantes do próximo: Diana e Julie Verdugo. A ideia originou-se em 2011 quando Julie foi participar de um intercâmbio no Brasil durante o seu programa MBA. Estes amáveis seres humanos abdicaram de suas próprias vidas pessoais no período de pelos menos 3 meses para viver literalmente a vida nas favelas em troca de repartir um pouco mais de seus conhecimentos acadêmicos com os mais pobres. O plano consistia em apoiar o desenvolvimento de negócios nas favelas, ensinar moda sustentável e comunicação para os jovens menos afortunados, moradores da comunidade.

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E foi dentro destes 3 meses de vivência que elas conheceram o talentoso Ilton. Entre diversos bate-papos o “compadi” revelou seu criativo projeto de moda sustentável, denominado Fashion Lixo.  A ideia do Fashion Lixo consiste em ensinar os moradores da favela a transformar o lixo em produtos de moda, ou seja, desenvolver uma moda original e criativa, fazendo dela algo mais sustentável e sem custo algum.

Para tanto, era preciso utilizar pedaços de garrafas pet, cd´s, discos de vinil, sacos plásticos, pedaços de jornais e revistas, canudos plásticos, filtros de café e até mesmo caixas de cereais. A iniciativa foi tão bacana que logo ganhou forma e transformou-se num desfile de moda realizado no Walmart.  Genial, não?

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Fashion Lixo, projeto que consiste em ensinar os moradores da favela a transformar o lixo em produtos de moda – Moda na favela

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Moda na favela – Algumas criações resultantes da iniciativa, levando criatividade e moda para as favelas

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A iniciativa foi tão bacana que logo ganhou forma e transformou-se num desfile de moda realizado no Walmart. Na foto Ilton Barros, um dos criadores do projeto admira o resultado do projeto – Moda na favela

Entrevista com Diana Verdugo

Confira a entrevista exclusiva concedida ao Fashion Bubbles, em Berlim, por uma das irmãs, Diana Verdugo. Ela nos contou um pouquinho mais da origem de sua motivação para entrar de cabeça, corpo e alma neste projeto super humano. Vale a leitura:

Roberta –  Diana, qual a sua grande motivação para encarar um projeto como este?

Diana – Eu visitei a minha primeira favela trabalhando num projeto em Ribeirão Preto, em 2006, onde eu me apaixonei completamente pela cultura brasileira, pelas pessoas, por suas atitudes, pelas músicas…

Fiquei totalmente fascinada pelo otimismo dos brasileiros, especialmente as pessoas que tinham tão pouco.  Desde então, um pedaço da minha alma foi deixado lá e sempre tento incorporar uma dose da cultura brasileira no meu dia-a-dia, seja através de viagens, projetos, artes, ou de amigos.

Mais tarde em 2011 a minha irmã gêmea, Julie, foi ao Brasil para fazer um intercâmbio de seu MBA em S.P. Durante este período ela teve a oportunidade de visitar o Rio de Janeiro e, por curiosidade, fez um “Favela tour”na Rocinha.  Lá Julie foi cativada pela bela produção artesanal das bijouterias vendidas por artistas locais da comunidade. Curiosa perguntou a eles como eles produziam as peças e como as vendiam.

Acabou por descobrir jovens incrivelmente talentosos e dotados de uma criatividade inigualável. Para ela esta experiência foi a chama motivadora que a incentivou a elaborar um “business plan” (= plano de negócio) para seu projeto final de MBA. Durante o projeto ela colaborou com uma ONG – Comunidade de Ação – que ajudava a desenvolver trabalhos sociais na favela Complexo de Alemão.

Depois de sua formatura no MBA, Julie resolveu postergar o seu emprego com Adidas Fashion Group e engajou-se num projeto piloto com esta mesma ONG – Comunidade de Ação  – onde colocaria em prática, por 3 meses, o desenvolvimento de um programa que entendesse as necessidades, paixões e talentos dos moradores das favelas.  Foi então, Junho de 2012, que Julie desembarcou no Complexo de Alemão e imediatamente me contatou dizendo que eu deveria me juntar a ela porque esta era uma experiencia super especial.  Depois de pensar uns três segundinhos, comprei a minha passagem e, como diriam os gringos, “O resto é historia!”

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Roberta  –  Você não teve medo de morar nas favelas? Como você encarou este desafio?

Diana – Definitivamente existe um estigma do que acontece nas favelas.  As noções que pessoas normalmente têm provavelmente são geradas através de filmes como, por exemplo: “Cidade do Deus” e das chamadas dos jornais.  Eu passei um tempinho antes em favelas menores, que me mostraram um conhecimento”light” do que era uma favela. Mas, claro, estávamos um pouco ansiosas, pois ouvimos tantas notícias sobre como o Complexo de Alemão (pacificado recentemente) era visto como uma das favelas mais perigososas do Rio de Janeiro.  Julie chegou lá primeiro e, naturalmente, eu como a sua irmã gêmea,  fiquei meio preocupada. Procurei equipá-la com frases básicas de português e algumas dicas culturais que aprendi no tempo em que vivi no Brasil.  Mas quando cheguei lá encontrei algo totalmente inesperado: Julie conversando e trabalhando em português e fazendo boas amizades na favela, incrível! Ela já tinha se acostumado com a vida nesse local e até aprendeu algumas gírias, integrando-se muito bem na comunidade – foi maravilhoso!

Inicialmente fiquei meio chocada ao ter de passar pelo esquadrão do BOPE que fica sempre na rua, equipado com grandes armas, mas no final eu e Julie ficamos mais tranquilas por causa dos nossos novos amigos, que eram da própria comunidade. Se era possível que eles morassem lá, brincassem na rua,  andassem sozinhos sem problemas, Julie e eu poderíamos fazê-lo também.  Obviamente que foi necessário fazermos um esforço para nos integrarmos na comunidade, melhorar o nosso português, e tratarmos a todos da mesma maneira como os demais se tratavam. (com muito respeito, carinho e um sorriso genuíno no rosto). Integração foi sem dúvida a melhor abordagem para resumir o nosso tempo lá, o que nos garantiu desfrutar o período com segurança.  Claro que existe um risco maior em algumas partes das favelas, mas fazer um esforço para entender a cultura, o idioma e o comportamento dos moradores, nos ajudou em muito a fazer parte da vida local, criando novas e grandes amizades, e ainda de quebra, compartilhando alguns dos nossos costumes com eles também.

Roberta –  Qual a sua opinião sobre os jovens que crescem nas favelas hoje? Você pensa que eles serão produtos do meio, ou, você enxerga (pela sua convivência com alguns deles) que eles poderão criar um futuro melhor (como o exemplo do compadre Ilton Barros)?

Diana – Eu acho que os jovens que crescem nas favelas hoje são parte de uma geração com novas oportunidades por vir. O aumento do apoio às ONGs, as atividades do Governo que permitem a integração destes jovens na sociedade,  a pacificação e a Internet têm ajudado a desenvolver uma geração quem tem mais oportunidades.  A maioria deles têm sonhos grandes, têm mais curiosidade e uma conexão melhor com o mundo, em comparação aos seus pais.  Isto não quer dizer que eles não encontrem pela frente enormes obstáculos, que nós nem sequer podemos imaginar ter de passar por, como a contínua violência, um escasso acesso a Educação e a Saúde de alta qualidade.

O acesso à Internet foi uma das maiores surpresas para mim e Julie quando chegamos lá.  Muitos jovens tinham acesso a smartphones.  Eles usavam os seus telefones para baterem papo com amigos, ouvirem música, navegarem na Internet, como os outros jovens no mundo de hoje. Acho que o valor mais importante que a Internet oferece para estes jovens é a possibilidade deles sonharem mais alto.  Sem o conhecimento do mundo lá fora, como seria possível conhecerem as possibilidades existentes e mudarem os cursos dos seus futuros?  Ao poderem ver músicos, atores, médicos e artistas online eles começam a entender o que as outras pessoas fazem e podem espelhar-se nestes personagens, ou serem ainda melhores que eles!  A internet é mais poderosa do que podemos perceber.  Eu acho que ela ajuda a preencher a lacuna de muitas barreiras econômicas e geográficas, sendo uma ferramenta que os jovens amam e já sabem utilizar. É realmente extraordinário pensar nisto!

Roberta –  Diana, para finalizar nos diga como você está planejando incluir esta experiência passada em seus planos futuros?

Diana – Então, agora que esta geração está sonhando maior, pensando mais e trabalhando mais na direção das suas metas, acho que é de nossa responsabilidade, como parte da sociedade, apoiar eles ajudando-os a alcançarem os seus objetivos, sejam eles de qualquer tamanho, grandes ou pequenos. Neste exato momento Julie e eu estamos desenvolvendo uma plataforma online que também inclui um componente que trará de volta às favelas novos projetos, chamada: “NeedIt”.

Por hora, podemos revelar apenas uma palhinha do que será esta estrutura, pois ainda têm muito mais coisas legais por vir… É um moderno mercado online para itens de segundo mão, feito para trazer a comunidade dos chamados “Flea Markets” (que em português pode ser traduzido como “Mercado de Pulgas” ou ainda: Mercado de coisas feitas a mão, semi-novas, antigas, ou usadas) para a Internet, mas com um estilo mais cool e  criativo, sem comprometer o impacto social. O conceito é baseado em nossas paixões e os valores que desenvolvemos nas favelas: Moda, Cultura e Impacto Social.

A gente aprendeu tanto com o Ilton e os jovens ao redor sobre esses assuntos, que é natural querermos incluir um elemento destes em nossa empresa, podendo agradecê-los por tudo que nos ensinaram. Julie e eu ficaremos muito felizes e animadas em podermos compartilhar com vocês esta plataforma quando estiver pronta!

Veja mais fotos

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Moda na favelaDesfile do Projeto Fashion is in the favelas

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A iniciativa trouxe moda sustentável e comunicação para os jovens menos afortunados, moradores da comunidade

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Ilton Barros, morador da favela do Complexo do Alemão (RJ), nos mostra que criatividade não tem lugar, nem classe e nem hora – Moda na favela

Por Roberta Gerace Gazzolla

Para quem não me conhece, vou me apresentar então: me chamo Roberta, uma idealista, cidadã do mundo, apesar de ter estabelecido meus pezinhos na louca Berlim por um tempo, neta de italiano (sangue forte), tia da Sophie, publicitária, escritora nas horas vagas, amante das bikes, moda, viagens, cinema e todas as manifestações de cultura imagináveis.

A ideia neste espaço é mostrar um pouco da minha visão lúdica, atenta, criativa e curiosa de coisas bacanas que posso vivenciar aqui nesta Berlim frenética e dividir com vocês, que assim como eu, devem adorar as novidades do fashionbubbles.com . Além de falar de novos artistas, música, moda, eventos, cultura, vou trazer também um pouquinho da minha visão do ser humano, através de algumas crônicas em formas de diálogos internos.

Tudo isto será escrito com muito carinho, dedicação e diversão.

Espero que curtam este espacinho e fico aberta a sugestões/críticas.

liebste Grüsse aus Berlin,

Roberta Gerace Gazzolla (E-mail: robertafashionbubbles@gmail.com)

Berlim – 5 dicas inusitadas. Inspire se! Criatividade, arte e esporte para tornar a vida mais gostosa
Roberta Gerace Gazzolla correspondente do Fashion Bubbles direto de Berlim

20 dezembro 2013
Fashion Bubbles

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